Lepidopterismo e erucismo

Lepidopterismo

Os relatos sobre os acidentes provocados na fase adulta da mariposa são raros e ocasionais, muitos deles na América do Sul. Na maioria das vezes, ocasionados pelo gênero Hylesia. O quadro clínico é restrito à pele, na qual há uma reação avermelhada com coceira intensa que dura entre uma e duas semanas. Acredita-se que não há necessidade de contato direto com a mariposa. Nos processos migratórios, as mariposas migram em grupos grandes, com liberação de cerdas que flutuam e alcançam casas e roupas - atingindo desta forma o homem. Quando a origem das cerdas for a mariposa, classifica-se como lepidopterismo. A evolução é benigna.

O aparecimento de lesões de pele relacionadas a mariposas foi reconhecida nos anos 50 em São Paulo. No final dos anos 80 descreveu-se um surto com quase 700 pessoas na Baixada Santista. Recentemente, foi registrado um surto de lepidopterismo na tripulação de navio que desembarcava em Salvador, Bahia e, também no Rio Grande do Sul. Como ocorre com a maioria dos acidentes com animais peçonhentos, os surtos ocorrem no verão principalmente em zonas rurais.

O erucismo

Os professores Alberto Cox Cardoso, de Alagoas, e Vidal Haddad Jr, de São Paulo, mostraram que o erucismo é muito antigo. Afirmam os autores, nos Anais de Dermatologia: “desde a Grécia antiga já existem relatos de lesões dermatológicas após contato com lagartas. No império romano, Plínio, o Velho e Galeno, também escreveram sobre a propriedade irritante dos lepidópteros. No continente americano, o primeiro relato remete ao padre José de Anchieta em suas “Cartas de São Vicente" (1569), em que o jesuíta menciona algumas manifestações e costumes dos índios brasileiros de friccionar taturanas no pênis para provocar edema e facilitar o ato sexual. Marcgrave e Piso, os pais da História Natural no Brasil, registraram casos de acidentes por lagartas no Nordeste, em 1658. Em 1918, na Guiana Francesa, Leger e Mouzels descreveram os primeiros casos de dermatite por cerdas de mariposas de gênero Hylesia e tiveram seus estudos continuados por Boyé, em 1932. Gusmão também registrou no Brasil, em 1960, um surto no atual Estado do Amapá.

Certifica-se hoje que 12 famílias da ordem Lepidóptera podem oferecer riscos de acidentes. Na maioria das vezes são lesões de pele que queimam, coçam, irritam, mas têm evolução benigna. Outras vezes, em pessoas com contato anterior há risco de reações alérgicas de maior gravidade. Uma das lagartas mais encontradas em todo mundo é o da mariposa-cigana, que causa reações cutâneas graves com queimaduras e bolhas. No Brasil, pesquisadores do Instituto Evandro Chagas em Belém, no Pará, mencionaram a ocorrência de artrite decorrente do contato com as cerdas da pararama (Premolis semirufa). Ela atinge os seringueiros que, quando coletam o látex, entram em contato com cerdas das lagartas ou dos casulos, o que leva a uma reação nas articulações dos dedos, podendo evoluir para anquilose.

As duas principais famílias de lepidópteros causadoras de acidentes são Megalopygidae, as lagartas “cabeludas” (figura 2) e as Saturniidae, as “lagartas espinhudas” (figura 1). Entre elas, encontram-se as lonomias. Hoje há uma imensa preocupação no que diz respeito aos acidentes provocados pela Lonomia obliqua e a Lonomia achelous, principalmente a primeira. O Ministério da Saúde exige a notificação tanto para acidentes com lonomia como para as demais lagartas.

Acidentes por animais peçonhentos - taturanas
Lagarta "espinhuda"

Acidentes por animais peçonhentos - taturanas
Lagarta "cabeluda"


A Lonomia obliqua é encontrada em árvores frutíferas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e a Lonomia achelous em seringueiras no Amapá e Pará. As substâncias que inoculam são semelhantes, mas com ação distinta na coagulação. A Lonomia obliqua é uma taturana esverdeada, com manchas e listras. No dorso encontram-se as cerdas em forma de espinhos ramificados e pontiagudos.

O contato com a Lonomia obliqua provoca dor de cabeça, náusea, lesão de pele, equimoses e hematomas. Porém o mais grave são as manifestações hemorrágicas com evolução a óbito ou seqüela. Houve casos de acidente vascular cerebral hemorrágicos fatais. O contato com a lonomia causou muitas vítimas no sul. No Rio Grande do Sul, entre 1989 a 2001 foram registrados 3.331 casos, com 10 óbitos; em Santa Catarina foram 2.060 relatos e 6 óbitos e, no Paraná, 252 casos e 5 mortes. Esses dados foram alarmantes o suficiente para obrigar as secretarias de Estado da saúde e o Ministério da Saúde a passar a considerar o erucismo como acidente de notificação compulsória. Ao mesmo tempo, o Instituto Butantan foi acionado para isolar o veneno e produzir um soro específico para Lonomia obliqua. O veneno da Lonomia é anticoagulante, ou seja, faz com que haja possibilidade de sangramento em vários locais do corpo, incluindo no sistema nervoso central (cérebro) podendo evoluir com um quadro clínico de derrame (acidente vascular cerebral hemorrágico). Essa é a principal causa de morte nos acidentes relacionados a esse tipo de lagarta.

Mantendo a tradição, o Instituto Butantan conseguiu isolar o princípio ativo do veneno da taturana, a proteína lopap (sigla em inglês de Lonomia obliqua prothrombin activator protease - ou protease ativadora de protrombina) e criou o soro antierucismo, para tratamento dos acidentes.