Da Boca do Lixo ao cinema da retomada

As primeiras produções de destaque do cinema paulistano aconteceram na verdade na vizinha cidade de São Bernardo do Campo, que sediava o mais importante estúdio de cinema do Brasil, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Foram 22 longas metragens de padrão internacional na década de 50. Mas a marca cinematográfica paulistana ficou mais associada ao chamado cinema da Boca do Lixo, espécie de cinema marginal produzido no decadente centro da cidade, mais especificamente no bairro de Santa Ifigênia.

A região, que foi escolhida pelos distribuidores de filmes estrangeiros para abrirem seus negócios no começo do século 20, em função da proximidade com as estações rodoviária e ferroviária, acabou por se transformar em um dos principais pontos de prostituição da cidade e também local de encontro de alguns malandros famosos, que acabaram por se tornar inspiração e personagens em filmes. Nas décadas de 60 e 70, a região acabou por  abrigar as produtoras de um grupo de cineastas paulistanos interessados em mostrar em seus filmes o submundo urbano, dos excluídos e dos renegados pela sociedade, a partir de produções baratas. Nascia o Cinema da Boca do Lixo, que teve entre seus principais diretores Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, Ivan Cardoso e José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Somente uma metrópole com as características de São Paulo e sua diversidade de gente e culturas poderia fornecer elementos para um cinema desse tipo. A Boca do Lixo rendeu à cinematografia nacional obras importantes como “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, “Demência”, de Carlos Reichenbach, e “À Meia Noite Levarei Sua Alma”, do Zé do Caixão. Numa fase posterior a Boca do Lixo foi também reduto da produção do cinema pornô.

Mas a produção cinematográfica paulistana não se limita à Boca do Lixo. Na chamada fase da retomada do cinema brasileiro que acontece na virada do século 20 para o 21, o cinema paulistano se destaca. Da cidade saem diretores e produções que ganham projeção nacional e internacional. Entre eles, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel”, “Domésticas”), Beto Brant (“Cão sem Dono”, “Crime Delicado”, “O Invasor”) e Ana Muylaert (“Durval Discos”).

Para assistir às produções nacionais, os lançamentos internacionais ou as mostras de cinema a cidade oferece cerca de 300 salas de exibição, algumas delas com as tecnologias mais avançadas de imagem e áudio.