Literatura com sotaque paulistano

Os escritores tipicamente paulistanos surgiram no começo do século 20 e ganharam projeção principalmente após a realização da Semana de Arte Moderna em 1922. O estilo paulistano de escrever esteve no começo associado aos imigrantes que a cidade recebeu e ao seu processo de modernização urbana, provocado pela industrialização.

Isso não quer dizer que a cidade não tenha tido bons escritores antes desse período. Durante o século 19, a cidade revelou Álvares de Azevedo (1831-1852), representante da fase ultra-romântica do Romantismo. Influenciado pela escrita do inglês Lord Byron, Álvares desenvolveu uma obra caracterizada pela melancolia, subjetivismo e sarcasmo tendo como tema central a morte. O poema “Se eu morresse amanhã!” é um bom exemplo do estilo do escritor, que morreu jovem vítima de tuberculose:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
 
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Mas uma linguagem tipicamente paulistana na literatura nacional ganharia destaque a partir do movimento modernista. O escritor Antonio Alcântara Machado (1901-1935) escreveu a coletânea de contos “Brás, Bexiga e Barra Funda”, nomes de três dos bairros da colônia italiana em São Paulo. Com uma linguagem coloquial, o escritor busca retratar em narrativas curtas, quase uma colagem de cenas, o dia-a-dia dos imigrantes e seus descendentes.

Os principais nomes do movimento modernista literário no Brasil são paulistanos. Oswald de Andrade (1890-1954) e Mário de Andrade (1893-1945) não só foram os responsáveis pela introdução do Modernismo no país como também desenvolveram uma obra literária, dramatúrgica, crítica, ensaística e de pesquisa histórica fundamental para a cultura brasileira. Oswald, além de autor do Manifesto Antropofágico e de obras teatrais como O Rei da Vela e O Homem e o Cavalo, escreveu livros de poesia e romances fundamentais para a renovação da linguagem da literatura brasileira, como “Pau Brasil”, “Memórias Sentimentais de João Miramar” e “Serafim Ponte Grande”.

Mário de Andrade tornou-se um pioneiro do modernismo no país ao lançar o livro “Paulicéia Desvairada” em 1922. Um dos mais atuantes intelectuais do país no século 20, Mário desenvolveu pesquisas e ensaios fundamentais para a caracterização de uma cultura brasileira moderna. Sua contribuição como pesquisador vai da música ao folclore. No campo literário, foi autor de obras essenciais como “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” e “A escrava que não é Isaura”, entre outros.

Nos anos 50, outro movimento literário importante nasce na cidade. Com implicações principalmente na poesia e nas artes plásticas, o movimento concretista tinha em seu núcleo três paulistanos: os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari. A proposta do grupo paulista era destacar o espaço gráfico e a visualidade dos poemas, para eliminar a distinção entre forma e conteúdo e possibilitar múltiplas leituras por parte do leitor. À proposta paulista surgiu uma oposição por parte do grupo concretista sediado no Rio de Janeiro, o que resultaria no final da década de 50 numa ruptura e no surgimento do movimento neoconcretista, em que um dos expoentes é o poeta e crítico Ferreira Gullar.

A partir da segunda metade do século 20, a produção literária paulistana continua  bem representada com escritores como Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão e Hilda Hilst, entre outros.