Uma viagem malfadada - enganos realmente titânicos

O tamanho do Titanic acendeu um debate acalorado. Alguns diziam que um navio daquele tamanho não poderia ser seguro; outros diziam que um navio tão grande quanto o Titanic seria praticamente impenetrável.

Mas havia muitos problemas com a grandeza geral do Titanic. Para começar, o Conselho de Comércio não tinha regras de segurança em vigor para um navio daquele tamanho. De acordo com a Lei da Marinha Mercante de 1894, promulgada pelo conselho, a quantidade de botes salva-vidas necessários a bordo de um navio deveria ser em proporção direta da tonelagem bruta da embarcação. Mas o cálculo presente na lei só chegava até um navio de 10 mil toneladas, que deveria carregar 16 botes salva-vidas. O Titanic, que excedia esse valor por cerca de 35 mil toneladas, carregava exatamente 16 botes [fonte: RMS Titanic - em inglês].

Outros grandes problemas? O Titanic passou por cerca de apenas seis ou sete horas sendo testado. Durante esse período, o raio de manobra e os equipamentos do navio foram observados, porém o Titanic nunca foi acelerado até sua velocidade máxima. E além disso, os testes de emergência exigiam que alguns membros da tripulação praticassem o lançamento dos botes salva-vidas, mas eles lançaram apenas dois dentre os dezesseis, chegando a uma estimativa não exata do tempo necessário para os procedimentos de evacuação. Um motivo para esses testes e treinamentos abreviados pode ter sido o fato da tripulação completa ainda nem ter embarcado - muitos não haviam embarcado até poucas horas antes do Titanic partir de Southampton, e a maioria da tripulação não havia recebido tarefas ou cargos oficiais até aproximarem-se de Cherbourg no dia seguinte [fonte: Titanic Inquiry Project - em inglês].

O navio também tinha poucos suprimentos de segurança. Como já vimos, havia muito poucos botes salva-vidas, e além disso, também faltavam binóculos e luzes de busca para a tripulação. E embora o sistema Marconi de telégrafo sem fio a bordo do Titanic fosse inovador, ele era provavelmente inovador demais para ser eficiente: Ainda não havia muitas pessoas que soubessem enviar e receber mensagens pelo sistema Marconi.

O Titanic também era uma ameaça involuntária. As águas agitadas deixadas no rastro do navio eram suficientemente violentas para sugar um navio a vapor de menor porte, o New York, para a sua hélice. O Titanic saiu desse acidente sem um arranhão, mas o New York não teve tanta sorte - suas amarras foram praticamente rasgadas e tiveram de ser recuperadas. Enquanto isso, sem que muitos dos passageiros a bordo sequer suspeitassem, o Titanic de fato esteve em chamas em um de seus depósitos de carvão. O fogo não foi suficiente para deter o navio gigante; o Titanic continuou navegando, e o fogo acabou se extinguindo. (Ainda bem, pois o Titanic precisava de todo o carvão que estava armazenado a bordo. O navio exigia quase 600 toneladas, algo em torno de 544 toneladas métricas por dia para funcionar).

A viagem inaugural de travessia do Atlântico deveria ter sido postergada devido a esses incidentes? Talvez. Mas o capitão, a tripulação e os passageiros igualmente colocavam sua confiança na gigantesca embarcação. A força bruta e o tamanho do barco poderiam evitar qualquer desastre, e isso poderia explicar o motivo do Capitão Smith não ter dado atenção aos avisos que ele recebeu sobre o gelo, na noite de 14 de abril de 1912, e em vez disso ter seguido em frente - à toda velocidade - chegando a impressionantes 22,5 nós.