Sobreviventes, mortos e processos legais do Titanic

Autor: 
Candance Gibson

Homenagem a uma das vítimas anônimas do naufrágio do Titanic
© istockphoto.com / Andre Nantel
Homenagem a uma das vítimas anônimas do naufrágio do Titanic

Quando o Carpathia chegou no local do desastre, às 4h30 da manhã de 15 de abril, encontrou uma cena desoladora. Os botes salva-vidas estavam à deriva, sem bússolas ou lanternas, e os trêmulos passageiros estavam abraçados tentando proteger-se do ar gelado. O Carpathia recuperou 14 botes e 712 sobreviventes - embora um deles tenha morrido mais tarde, a caminho de Nova York, o destino final da viagem inaugural. A essa altura, o mundo estava despertando ouvindo as notícias de que o navio inafundável havia afundado. Famílias que tinham entes queridos a bordo da embarcação estavam desesperadas por uma lista de sobreviventes; e essa lista não seria compilada até uma semana depois do acidente.

Após recolher os sobreviventes, o Carpathia pediu ao Californian para procurar cadáveres. A embarcação relatou não ter encontrado nenhum. Os historiadores (em inglês) de hoje acreditam que o Californian não contava com fatores como a deriva e a força do impacto, que podem ter carregado os corpos para longe do local onde o Titanic afundou. Esses resultados foram insatisfatórios para a White Star Line. A White Star designou navios de busca para conduzir investigações adicionais na área. Dessas embarcações, o Mackay-Bennett recuperou 306 corpos, o Mina encontrou 15 e o Montmagny e o Algerine chegaram com quatro e um, respectivamente. As tripulações dessas embarcações foram submetidas a uma visão macabra - cadáveres congelados e inchados. Os mortos estavam tão completamente encharcados, sendo necessário um pequeno grupo de pessoas para puxar cada um deles pela lateral do barco.

Os passageiros recuperados da primeira classe foram embalsamados e colocados em caixões. Em muitos casos, seus membros congelados tiveram que ser quebrados à força para caberem. Os passageiros da segunda e terceira classes foram enfiados em sacos de lona, e alguns membros da tripulação foram colocados nas câmaras frigoríficas das embarcações, enquanto outros foram amarrados a barras de ferro de 12 kg e afundados até as profundezas do oceano. Os cadáveres recuperados foram levados para um porto próximo, na Nova Escócia, onde foram identificados e sepultados. Identificar os corpos mostrou-se difícil; alguns tripulantes haviam invadido cabines em busca de peles e roupas quentes, e suas identidades foram confundidas com as de passageiros da primeira e segunda classes. A White Star Line concordou em enviar os corpos de volta a Southampton, Inglaterra, mediante uma taxa de cargas; ninguém aceitou a proposta da empresa.

O Rei George V da Inglaterra emitiu uma declaração pública de condolências pela tragédia e o Parlamento conduziu um inquérito sobre o acidente. O Senado dos EUA também conduziu uma investigação com base no fato do senador William A. Smith ter navegado anteriormente com o capitão Smith, e estar curioso para saber como um navio sob seus cuidados pôde afundar. Tanto a Inglaterra como os Estados Unidos chegaram a conclusões semelhantes: o navio tinha equipamentos salva-vidas inadequados a bordo, e seus projetistas e inspetores haviam sido negligentes e superficiais em suas avaliações. Como havia muitas inconsistências nas descrições dos sobreviventes e relatos das testemunhas, foi quase impossível chegar a conclusões firmes sobre o desastre. (Com a ajuda da tecnologia moderna, contudo, os cientistas puderam determinar como o Titanic afundou - a questão, porém, de quem deve receber a culpa, ainda permanece aberta para debate).

Mais tarde, o Conselho de Comércio declarou que os 26 botes salva-vidas determinados como necessários a bordo de um navio do porte do Titanic não poderiam ter sido baixados e embarcados dentro da quantidade de tempo que a tripulação teve para evacuar os passageiros. Ações individuais foram movidas contra a White Star por perdas pessoais de entes queridos e propriedades; os veredictos desses casos são amplos e variados. Alguns advogados chamaram os casos do Titanic de pesadelos litigiosos, devido às discrepâncias e inconsistências na história.

A ênfase da recuperação foi dada aos passageiros e tripulação do Titanic; durante quase um século, o navio permaneceu enferrujando nas profundezas do Atlântico. No fim do século 20, os cientistas ficaram obcecados em localizar os restos do naufrágio.